Quando esperamos um filho, ouvimos informações em todos os sentidos que por vezes se podem contradizer, e o mesmo acontece com o tema do uso de porta-bebés. Enquanto futuros e jovens pais, isso pode ser stressante. Carregar o filho pele a pele, usar o bebé numa wrap ou num porta-bebé tendo as mãos livres para as suas atividades, transportar em posição vertical, horizontal, 2 horas por dia, 15 horas por dia..
A Keren, co-criadora da marca Love Radius, especialista em babywearing fisiológico, partilha em vídeo a sua reflexão sobre o tema: porquê usar porta-bebé? Se preferir a leitura, o vídeo foi transcrito abaixo. O texto será dividido em várias partes para facilitar a sua compreensão.
" Olá, sou a Keren, a co-criadora da marca "Love Radius", "Je porte mon bébé" e do centro de formação "l'école à porter" onde acompanho pais, futuros pais e profissionais de saúde, desde 2006, na prática do uso de porta-bebés.
Portanto, hoje não será necessariamente um vídeo tutorial no qual vos mostro ou explico como fazer. Aqui, vamos estar noutro registo que é o do "ser" e do que somos perante o uso de porta-bebé ou esta novidade que se chama babywearing.
Então veja, não somos todos iguais perante a novidade. Poderíamos qualificá-la por vezes como difícil, pois é desconhecida. Faz parte de algo que nos desestabiliza, por vezes que nos surpreende. E como não estamos todos armados, nunca estamos armados perante a novidade, podemos abordá-la justamente de forma frontal com muita hesitação.
Justamente como eu agora mesmo neste momento. É a primeira vez que falo assim numa transmissão ao vivo, diante de pessoas que não vejo mas que, sei, estão muito presentes. Sinto-me constrangida, embaraçada, emocionada, e nem sempre é uma sensação muito agradável. Poderia qualificar esta novidade como difícil, difícil de suportar e perguntaria a mim mesma: porquê? Porquê tenho de fazer isto? Nomeadamente em relação ao uso de porta-bebés ou de pais jovens que desejam transportar o bebé e que têm escolhas a fazer: que posições, que ferramenta? Para enfrentar esta novidade, há decisões a tomar.
Então, queria propor-vos 5 estratégias para pensar a novidade face à aprendizagem e poder, na verdade, propor-vos coisas que funcionam para mim, que funcionaram para nós enquanto pais jovens também, e que vejo funcionar para outros pais quando os encontro nos workshops.
Lembra-te do teu esquecimento
Então, a primeira coisa que poderíamos implementar para desenvolver esta abordagem face à novidade que está ligada à aprendizagem, em primeiro lugar diria: Lembra-te do teu esquecimento. Então, o que é que isso quer dizer? Lembra-te da primeira vez que montaste um móvel com esquadro. Bom, pode ser muito complicado mesmo que seja a décima vez. Ou outro exemplo: lembra-te do primeiro contrato de arrendamento que tiveste de ler ou de um contrato que o teu bancário te apresentou antes de abrires uma conta poupança. Ou simplesmente da primeira vez que fizeste os atacadores.
Então tento lembrar-me dessa primeira vez e na verdade não me lembro bem. Porque hoje, quando faço os atacadores, é fácil para mim. Não me lembro dessas dificuldades. Talvez fosse preciso às vezes uma criança que viesse e me recordasse, quando a vejo diante da sua dificuldade, da sua frustração, do seu choro, do seu nervosismo, e mesmo do meu nervosismo, de me recordar afinal o quanto era difícil antes. E justamente, como já não é difícil para mim, posso ajudá-la, posso dizer-lhe "vais conseguir, já vês, treinas e depois vem". Porquê? Porque era difícil e agora já não é.
Este esquecimento mostra-nos o quanto, no fundo, é interessante que o corpo e o coração se lembrem do que é interessante para continuar a progredir e a avançar. Já não nos lembramos das nossas primeiras dificuldades.
Ser pai, a arte da imitação
Uma outra forma de abordar esta novidade que por vezes pode ser difícil quando está ligada à aprendizagem é, na verdade, lembrar-se que ser pai é, no fundo, a arte de imitar. Então, no meu círculo próximo, nem sempre tenho uma fonte de inspiração e não tenho necessariamente vontade de imitar a minha mãe, a minha sogra ou a minha irmã. É triste dizê-lo mas por vezes é assim.
Portanto devo encontrar, reabastecer-me, convidar para a minha vida pessoas, mesmo à distância, que me inspirem. De quem gosto da forma como fazem com os seus filhos ou de pais que agem de forma interessante com os seus filhos. Poder ler, inspirar-me nos trabalhos de autores como "Donald Winnicott", como "Daniel Stern", como "Maria Montessori" e muitos outros cujos nomes vos poderia citar (vou colocá-los em ligação).
Portanto, cultivarmo-nos, no fundo, elevarmo-nos, educarmo-nos, para nos tornarmos os pais que desejamos ser.
Aprender para compreender
O terceiro ponto é que aprender, estudar, vai ajudar-me a compreender. E tenho vontade de tentar decompor esta palavra que se chama "compreender". Eu sou estrangeira e por isso um dos livros de que mais gosto são os dicionários nos quais todas as palavras vêm dormir: é o hotel das palavras. Quando olhamos para a palavra "compreender", percebemos que na sua etimologia significa "apreender com a inteligência", abraçada pelo pensamento, algo que me vai dar chaves suplementares para poder interpretar o bebé com a sua linguagem que não é verbal mas que é pré-verbal.
E mesmo que não tenha compreendido tudo...
E mesmo que no fim não tenha compreendido tudo, que não tenha lido todos os livros ou que não tenha encontrado à minha volta as pessoas certas ou que me inspirem e que esteja aqui diante do meu bebé agora mesmo. Que tenho de mudar a fralda, dar o primeiro banho e estou completamente desestabilizada, emocionada, stressada, acho-me inútil, acho-me lenta, acho-me completamente perturbada por esta experiência na qual tenho a impressão de não controlar nada. Aliás, o bebé diz-mo explicitamente, com o seu choro, com a sua forma de se expressar "não, não, na verdade não estás a fazer nada bem".
E no entanto fico, e persisto, e continuo. Porquê? Porque é necessário, porque na verdade é essa a minha função, porque no fundo é isso ser pais. Ficam ali, apesar de não ser gratificante agora mesmo neste momento, esta experiência única. Porque é isso ser pais.
A primeira função é proteger. Estão ali, nos vossos instintos sentem que há alguém que precisa de vós, que é mais fraco, que precisa de assistência, de ajuda para poder avançar, progredir, e estão ali para o proteger apesar de ser difícil para vós.
Momentum e primeiras tentativas de uso de porta-bebé
E justamente, o quinto ponto está mais relacionado com o tempo, o timing, a ocasião. Isso significa que se realmente fiz tudo, li tudo, informei-me, concordo, já vi todos os vídeos tutoriais, li o manual, fui ver uma consultora de babywearing, até me cultivei sobre a ideia de usar porta-bebé, sobre como fazer, treinei até com um peluche e então venho, pego no meu bebé e digo-lhe "vá, vamos lá, vamos tentar" e depois não funciona. Ele não concorda, enerva-se, contorce-se por todo o lado. Para mim é uma experiência muito desgastante, o coração bate a 200 à hora.
Não, precisamente. Cabe a mim, adulta, saber e compreender que se não for agora mesmo, será logo a seguir. Não resultou desta vez, o bebé não estava disponível, não estava disposto, e bem, haverá outro momento, depois. Sou eu, enquanto adulta, que devo conseguir compreender que ele tem uma temporalidade, "que há um agora e que haverá um momento depois" e que o momento seguinte poderá ser o momento certo.
Pronto, espero que este tempo tenha sido benéfico. Em todo o caso, para mim, esta primeira experiência não foi nada fácil e fico contente por ter superado com coragem estas dificuldades, pois ser corajoso não é nunca ter medo. Ser corajoso é ter medo e ir na mesma.
Agradeço-vos por me terem ouvido!
Até breve."
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